Dr. Mario Garnero: Um campineiro cidadão do mundo

Quando Vice-Prefeito de Campinas, fui convidado a participar em Monte Carlo da “Conferência de Mônaco – Oportunidades de Investimentos no Brasil”, organizada pelo Fórum das Américas, entidade fundada e presidida pelo empresário campineiro Mário Garnero, também Presidente do Grupo Brasilinvest.

Em companhia do Presidente do Grupo RAC, Dr. Sylvino de Godoy Neto e outros convidados de Campinas, por dois dias assistimos a um desfile interminável das mais altas autoridades brasileiras e internacionais. Líderes políticos, empresários, juristas, economistas, diplomatas e jornalistas do mundo todo analisando e discutindo as oportunidades e possibilidades de negócios oferecidos pelo Brasil e Mercosul ante a economia global.

O evento de dois dias intensos de atividades foi encerrado com um “jantar de gala”, no aristocrático Hotel de Paris, lotado, comandado pelo seu realizador, Dr. Mário Garnero, com as ilustres presenças do Príncipe Rainier de Mônaco, seu filho Príncipe Albert, Ex-Presidente, George Bush, a esposa Sra. Bárbara Bush, Chanceler Helmut Schmidt da Alemanha, Sergio Cragnotti empresário italiano, as mais altas autoridades brasileiras do executivo, legislativo e judiciário e tantas outras personalidades globais, numa demonstração de competência, respeito e prestígio internacional de seu idealizador, Dr. Mário Garnero, ocasião em que discursou aos presentes, mesclando e ilustrando suas palavras em cinco idiomas.

Foi um acontecimento marcante para a divulgação do Brasil no caminho de sua inserção e consolidação no mercado globalizado, mas no campo pessoal foi o ponto culminante de resgate integral da dignidade e honra, daquele que houvera sido vítima de conjecturas e tramas políticas injustificadas, como ficou comprovado três dias após, a posse de Sarney como Presidente interino e depois efetivado em ação de liquidação do Banco Brasilinvest, urdida pelo primeiro escalão da Nova República e liderada pelo então novo Ministro da Economia, Francisco Dorneles, cuja maior credencial era o de ser sobrinho de Tancredo Neves.

Faço essa introdução para encapar o tema principal deste artigo, que repete alguns outros já publicados, em que concentro meus comentários para enaltecer as qualidades de personalidades que admiro pelas realizações, conquistas, exemplos e lições de vida que oferecem.

Classifico o Dr. Mário Garnero como um clássico “self made man”, alguém que se fez por si próprio com seu esforço e por suas boas qualidades.

Nascido em Campinas, em lar próspero e harmônico, soube desde os tempos de estudante já em São Paulo, no tradicional Colégio São Luiz, fazer prevalecer e cultivar seu espírito de liderança, consolidada na Presidência do Centro Acadêmico 22 de Agosto da Faculdade Paulista de Direito da PUC de São Paulo.

Nessa posição com segurança próxima do atrevimento, desenvolveu e aprimorou sua vocação de realizador e empreendedor de diálogos e entendimentos, discussões e debates, reuniões e oportunidades, para exposição dos mais heterogêneos matizes ideológicos, trazendo para “palestras” no Centro Acadêmico, figuras destacadas da vida pública e política nacional e internacional, líderes como Carlos Lacerda, Leonel Brizola, o líder camponês Francisco Julião e até o então candidato a Presidente dos Estados Unidos, Robert Kennedy.

Juscelino Kubitschek, que havia transmitido o Governo ao novo Presidente, Jânio Quadros, e, por ele era atacado ferozmente, aceitou o convite do acadêmico Mário Garnero de falar aos estudantes, com repercussão na mídia nacional. Antecedendo sua “palestra”, o Centro Acadêmico realizou uma missa na Catedral da Sé, e uma concentração monstro de populares se formou espontaneamente para saudar o ex-presidente querido do povo. Nessa ocasião, vendo a alegria popular, Juscelino observou ao jovem Mário, o que considerou uma grande lição que o auxiliou e muito em episódio futuro: “não há poder que resista à força moral”.

A partir de então, Juscelino incorporou Mário Garnero na organização de sua campanha para voltar a se eleger Presidente na eleição de 65, que não houve, transformando-o em coordenador da campanha em São Paulo e homem de sua mais absoluta confiança, mantida até sua trágica morte em acidente automobilístico que comoveu toda a nação.

Essa convivência marcou sua passagem para a vida adulta e profissional, alicerçada em sólida formação acadêmica e intelectual. Foi Diretor da Volkswagen e Presidente da ANFAVEA, poderosa Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores e da CNI, Confederação Nacional da Indústria, período em que, atuando pelo segmento privado industrial, teve ativa participação na vida nacional, principalmente no período de fortalecimento do movimento sindicalista, exercendo papel fundamental no diálogo e nas negociações com os metalúrgicos liderados por Lula, emergente líder sindicalista.

Numa iniciativa da ANFAVEA, realizou em Salzburgo, na Áustria, o “SALZBURGO-75”, Seminário Internacional sobre Investimentos no Brasil, evento que reuniu duas mil e duzentas pessoas destacadas do universo político empresarial de todo o mundo, cujo resultado contribuiu em dois anos com o crescimento dos investimentos estrangeiros no Brasil, em um bilhão e meio de dólares.

Na segunda metade dos anos 70, já no comando de seu grupo próprio, o BRASILINVEST, passou a atuar no universo dos negócios, desde venda de máquinas para a China, minerando cobre no Chile, montando polo petroquímico no Rio Grande do Sul, tirando leite de soja em Campinas e seu orgulho, a construção das duas torres de dezoito andares fincadas na Avenida Faria Lima, esquina da Rebouças, chamadas de “as torres do Brasilinvest”, cuja história da edificação compõe um processo que exigiu extensa arquitetura empresarial e financeira de folego, obstinação, otimismo e entusiasmo.

O BRASILINVEST cresceu agindo como Banco de fomento, vivendo de montagem de projetos econômicos, mas também gerindo crises motivadas pela economia instável do país, socorrendo um ou outro Grupo que fraquejava diante de dificuldades, tapando buracos, assumindo os custos e tocando os negócios para a frente.

Mário Garnero liderou com extrema habilidade a consolidação do Programa Pró Álcool, até então restrita a experiências e protótipos experimentais. Liderando a articulação entre governo e iniciativa privada, investiu no convencimento da indústria automobilística e dos usineiros, estipulando uma me- ta de pôr no mercado 250.000 (depois ampliados para um milhão) veículos movidos a álcool. Foi uma operação gigantesca que envolveu todos os segmentos governamentais e com aval do Presidente da Re- pública, dos executivos das fá- bricas de veículos e usineiros. Ao final de três anos, noventa por cento dos automóveis que saiam das linhas de montagem consumiriam um combustível mais barato que a gasolina.

Em 1982 a economia mundial estava em um momento dificílimo e o Brasil não era exceção, ao contrário, estava literal- mente “quebrado” a ponto de o Ministro Delfim Neto admitir que nossas reservas cambiais estavam a zero e o Brasil rumava para a reunião do Fundo Monetário Internacional levando sua moratória branca. Intensas articulações, conversas, jantares e intermináveis entendi- mentos com a marcante participação de Mário Garnero, em grande parte fruto de sua credibilidade internacional e relacionamento com os altos escalões de Washington, quase à revelia da chancelaria brasileira mas com o conhecimento e concordância do Presidente Figueiredo, culminou com a visita ao Brasil do Presidente Ronald Reagan, trazendo em sua bagagem um cheque de um bilhão de dólares, adiantando o dinheiro de um empréstimo ponte que estava em negociação com o Fundo Monetário Inter- nacional, suficiente para salvar o Brasil da falência.

Com o país caminhando para a redemocratização, no final do Governo Figueiredo, com novos Governadores eleitos pelo voto direto, as organizações da sociedade civil reivindicavam conquistas que conflitavam com os desejos do sistema, e a igreja exercia papel fundamental, tendo em D. Paulo Evaristo Arns um ator importante e fundamental no diálogo e entendimento com o governo.

Chamado para intermediar junto a Igreja em um conflito envolvendo invasões de propriedades no Araguaia insufla- dos pelos padres, Garnero foi acionado para intermediar entendimentos, e numa articulação com Don Paulo Evaristo Arns, encontrou-se, no Vaticano, com o Papa João Paulo II, tecendo entendimentos baseados na compreensão, solidariedade e bom senso de todas as partes, chegando a bom termo. Todos os anos, a partir de 1970, a Câmara de Comércio Brasil Estados Unidos confere a dois homenageados o título de “Homem do Ano”, um brasileiro e um americano, o mais cobiçado prêmio que um brasileiro pode receber nos Estados Unidos. Em 1984 Mário Garnero recebeu essa homenagem juntamente com John Opel, CEO da IBM, em solenidade concorrida num jantar black-tie no Grand Ballroom do Plaza Hotel de New York, na Quinta Avenida em frente ao Central Park, com a presença de mais de mil convidados.

Nas articulações para a eleição presidencial no Colégio Eleitoral ao final do Governo Figueiredo, Mário Garnero desempenhou, nos bastidores, papel relevante e fundamental atuando discretamente na interlocução com os principais atores, tendo destacada participação nos entendimentos secretos que precederam a transição pacífica do governo e fim da era dos militares no comando. Tancredo Neves utilizou, e muito, da habilidade, confiança e credibilidade que Garnero tinha junto ao Presidente Figueiredo para pavimentar esses entendimentos.

Quando atingido pelas acusações levianas, a liquidação de seu Banco e a perda das torres da Faria Lima, para permanecer nela enquanto se defendia teve de alugar ali uma sala de onde comandou as ações para total recuperação de seus bens, de seu Banco e de suas torres.

Não entregou os pontos na derrota, posto injusta, trabalhando e se esforçando para reavê-los sem duvidar um dia sequer que conseguiria, afinal estava em jogo seu maior ativo: sua credibilidade, inalterada e inabalada com os acontecimentos, acusações e injustiças contra quem, durante toda vida trabalhou e construiu uma inigualável e insuperável agenda de relacionamento internacional incluindo aí os Presidentes Reagan, Bush (pai e filho), Clinton, Obama, Trump e Biden, que lhe valeu o título simbólico de “embaixador itinerante da concórdia e dos bons negócios”.

A Conferência de Mônaco, narrado no início deste Artigo, foi o ponto alto e triunfal da reafirmação internacional de Mário Garnero. As acusações que pesaram sobre ele e as injustiças sofridas serviram para afastar os amigos de ocasião que se aproximam para tirar proveitos, mas que nas intempéries negam qualquer conhecimento, vínculo ou apreço bem antes do canto do galo.

Atuei ao seu lado juntamente com meu amigo Nelson dos Santos Filho na composição de consórcio para oferecer proposta na privatização da CPFL por fim não concluída, e nas articulações para consolidar o projeto de ampliação do Aeroporto de Viracopos.

Tenho por ele profundo res- peito e admiração pelos expostos motivos além de seu cavalheirismo, habilidade, competência e seu espírito inquieto que o motiva, impulsiona e o leva adiante sempre em busca de novos desafios, projetos e realizações.

Celebro o Dr. Mário Garnero como um grande brasileiro e merecedor de nosso respeito e admiração, e numa consideração final sobre o episódio político que o feriu, relembro o ensinamento que lhe foi transmiti- do por Juscelino Kubitschek: “não há poder que resista à força moral”; a sua força moral.

Fonte: Jornal Correio Popular de Campinas

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